 | | Ilustração: Filipe Rocha | O
Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) mudou e, a partir deste ano,
passa a ser o único ou um dos principais instrumentos de seleção de
ingressantes de 45 universidades federais. Nesse contexto, há quem
defenda que a avaliação vai se tornar uma referência central,
sinalizando para uma nova configuração do ensino médio, ao mesmo tempo
que aponta para mudanças no ensino superior.Este cenário
alimenta a expectativa de que o Enem impulsione um movimento de
renovação e (suposta) melhoria da qualidade da educação de nível
secundário, uma vez que propõe uma abordagem interdisciplinar do
conhecimento e que vincula mais fortemente teoria e prática. A
avaliação funcionaria, então, como um instrumento capaz de induzir a
renovação do ensino médio, tida como necessária por grande parte dos
educadores. No entanto, da promessa à mudança efetiva, há um
caminho um tanto quanto tortuoso a ser percorrido. A própria história
do Enem é evidência disso, ao se constatar que, desde que foi criado em
1998, seu impacto sobre os currículos acabou sendo limitado, influindo
isoladamente nos conteúdos e nas metodologias de ensino de algumas
escolas, mas não no sistema de ensino como um todo. Nem mesmo o
fato de ser aceito, ao longo da última década, como parte do processo
seletivo de centenas de instituições públicas e privadas de ensino
superior gerou uma mudança significativa sobre os conteúdos ou sobre a
maneira como se ensina e se aprende nas escolas brasileiras. E isso se
deve, justamente, à força do vestibular sobre o ensino médio. "O
Enem surgiu como um exame voluntário, por isso não se prestou muita
atenção nele até agora. A partir do momento em que ele passa a ter um
caráter de obrigatoriedade para o ingresso nas federais, ganha um novo
significado", analisa a educadora Guiomar Namo de Mello, ex-secretaria
municipal de Educação de São Paulo (gestão Mario Covas) e atual da
Escola Brasileira de Professores (Ebrap), empresa de projetos e
formação continuada. Ou seja, a percepção de alguns analistas é a
de que o Enem acabou perdendo a concorrência para o vestibular
convencional, fortemente embasado na divisão disciplinar dos conteúdos
e, segundo educadores (a maioria das quais da área de humanas), mais
centrado na memorização de informações e fórmulas do que na capacidade
de aplicar o aprendido ou de refletir sobre ele. Com isso, uma parcela
significativa das escolas teria continuado a se espelhar nesses exames,
tratando a aprendizagem como sinônima da capacidade de acumular
informações. Agora, a aposta é que o desfecho seja outro. "O
perfil da prova induz a uma repactuação entre o ensino médio e o
superior", diz Reynaldo Fernandes, presidente do Instituto Nacional de
Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), autarquia do Ministério da
Educação responsável pelo exame. Essa ideia começa a fazer mais
sentido quando se leva em conta que, além de funcionar como mecanismo
de ingresso nas federais, o MEC está realizando estudos, já avançados,
com a finalidade de adotar Enem como marco zero para avaliar o
desenvolvimento dos estudantes ao longo do ensino superior. Assim
sendo, já a partir de 2010, a prova do Exame Nacional de Desempenho de
Estudantes (Enade) feita pelos alunos do 1° ano de graduação poderá ser
substituída pelo Enem. A mudança de metodologia, contudo, não
significa necessariamente que o Enem será um exame mais adequado para
selecionar estudantes para o ensino superior do que os vestibulares
tradicionais. Esta é a opinião de Roberto Lobo Leal, ex-reitor da
Universidade de São Paulo (USP) e consultor: "A tese é que o Enem será
melhor do que os processos seletivos de instituições como a USP e a
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mas não temos a certeza de
que será assim". Metodologia mais moderna O
novo Enem é apresentado como uma avaliação moderna, construída segundo
uma metodologia que permite identificar os alunos mais capazes não
somente pelo volume de informação assimilada, mas por sua capacidade de
aplicá-la, graças à utilização da Teoria de Resposta ao Item (TRI). Além
disso, ele se estrutura em uma matriz de referência organizada em
quatro macroáreas - matemática, linguagens e códigos, ciências da
natureza e ciências humanas - capaz de aferir 120 habilidades, ante as
21 da versão antiga do Enem. "O aumento define melhor cada macroárea em
termos de habilidade e possibilita um aprofundamento do conhecimento do
sujeito que fará a prova", explica a consultora do Inep Gisele Gama
Andrade. Cada habilidade que integra a matriz será aferida pelo menos
uma vez, acrescenta Gisele. O Enem antigo contemplava somente
língua portuguesa e matemática e as questões não mantinham
necessariamente um vínculo com os conteúdos ministrados nas escolas;
agora, a matriz foi construída a partir das Orientações Curriculares do
Ensino Médio, publicadas pelo MEC em 2006. Desse modo, busca aferir a
capacidade de o aluno aplicar o conhecimento, ao mesmo tempo em que
incorpora conteúdos curriculares do ensino médio. Neste
ano, serão realizadas quatro provas (uma por área) contendo 45 questões
objetivas de múltipla escolha cada, durante dois dias, 3 e 4 de
outubro. Os alunos também farão uma redação. A partir de 2010, deverá
ser realizado duas vezes ao ano.
Entre especialistas, prevalece
a percepção de que o novo formato do Enem e a adoção de um exame
nacional de seleção de estudantes para o ensino superior público
representam um avanço. Para o sociólogo Simon Schwartzman, o novo Enem
é melhor do que o anterior. "Além de adotar uma metodologia mais
moderna, o que permite elaborar melhor o conteúdo, ele cria um padrão
de referência nacional."  | | Guiomar Namo de Mello, educadora: obrigatoriedade do Enem para o ingresso nas federais traz outro significado para a prova | A
também socióloga e coordenadora de projetos da organização
nãogovernamental Ação Educativa, Ana Paula Corti, considera
"interessante" a ampla utilização do Enem nos processos seletivos das
universidades federais "na medida em que permite um questionamento dos
vestibulares tradicionais e abre possibilidades para um exame mais
próximo dos objetivos do ensino médio estabelecidos pela legislação".Outro
aspecto positivo, salientado pela professora da Faculdade de Educação
da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Maria Márcia Sigrist
Malavasi é o fato de o Enem ser organizado por áreas de conhecimento,
não por disciplinas. Uma prova de "transição" A
percepção do avanço não significa, contudo, um consenso em torno do
formato proposto e de efeitos que o exame venha a produzir. O próprio
presidente do Inep avalia que, no primeiro momento, o impacto deverá
ser limitado. "Não haverá uma revolução", admite Fernandes, revelando
ter consciência de que será necessário melhorar o exame nas próximas
edições.
A matriz de referência é um aspecto que deverá ser
aprimorado. Já existe um compromisso para que ela seja revista em 2010
e há um Comitê de Governança do exame, composto por representante do
MEC, das universidades federais e das secretarias estaduais de educação
trabalhando nesse sentido. Um dos aspectos que precisam ser
revistos e em torno do qual existe uma unanimidade, por exemplo, é a
inclusão de uma língua estrangeira, o que deverá ocorrer no próximo
ano. A previsão é que inglês e espanhol sejam incorporados. Além
disso, como a estrutura do novo Enem se baseou na matriz do Exame
Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos
(Encceja), apresenta lacunas em relação aos conteúdos ministrados no
ensino médio regular, aponta a presidente do Conselho Nacional de
Secretários Estaduais de Educação (Consed), Maria Auxiliadora Seabra
Rezende. "O novo Enem é um híbrido do Encceja e do Enem e as
abordagens da Educação de Jovens e Adultos e do ensino médio regular
são distintas. Por isso, o novo Enem foi construído numa lógica de
transição. É preciso melhorar seu desenho nas próximas edições", diz a
presidente do Consed. A secretária de Educação Básica do MEC,
Maria do Pilar Lacerda Almeida e Silva, reforça o caráter de
"transição" desta primeira versão do Enem: "A proposta é avançar, mas
avançar com equilíbrio", afirmou durante uma audiência pública
realizada no Conselho Nacional de Educação (CNE) no início de junho. O perfil do ingressante Outro
aspecto que desperta curiosidade e discussões é o efeito que o novo
Enem terá sobre o perfil do ingressante no ensino médio. Nesse sentido,
cabe lembrar que um dos argumentos em defesa da transformação do Enem
em um exame de seleção para as universidades federais, em março de
2009, foi a possibilidade de ele impulsionar a democratização do acesso
às instituições públicas - já que os candidatos fazem apenas uma prova
e podem concorrer a várias universidades, inclusive de diferentes
regiões do país. Isso é possível porque o MEC está construindo um
sistema on-line que informará os estudantes sobre as vagas disponíveis,
a fim de que possam candidatar-se a elas. No caso das instituições
participantes do Sistema de Seleção Unificado - aquelas que adotam o
Enem como único mecanismo de ingresso -, o aluno se inscreve no
sistema, que fará o cálculo da nota final, permitindo a ele simular a
inscrição em até cinco cursos ou instituições. As universidades que
adotam o Enem apenas como parte do processo seletivo definirão suas
próprias regras. Toda essa mudança, contudo, poderá ter efeito
restrito na mudança do perfil do ingressante, como defende Guiomar Namo
de Mello. "Não adianta melhorar o exame, pois os candidatos que
estudaram nas melhores escolas continuam tendo mais chances", diz. Ou
seja, o que pode fazer a diferença não é a prova em si ou a matriz de
referência, mas a capacidade da escola de desenvolver um trabalho que
promova a aprendizagem e o desenvolvimento do aluno. O sociólogo
Schwartzman afirma acreditar que, se o Enem persistir enquanto um exame
que avalia o candidato a partir do desempenho em todas as áreas, não
haverá uma diferença significativa do perfil do aluno que chega ao
ensino superior, nem se produzirá um impacto importante sobre o
currículo do ensino médio. "Se continuarmos a exigir que todo
mundo saiba tudo, não se elimina a característica enciclopédica da
avaliação e do currículo do ensino médio", afirma. "A questão é criar
condições para permitir que as pessoas se especializem e esse passo
ainda não foi dado", analisa Schwartzman, que também é presidente do
Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets).
Assim,
analisa ele, estamos começando a caminhar na direção da Europa, onde
muitos países adotam exames realizados ao final do ensino médio como
mecanismo de ingresso no ensino superior. Mas, nesses países, existem
mecanismos de filtragem, tais como uma nota mínima para o candidato
concorrer a uma vaga na universidade (caso da França) ou a
possibilidade de concorrer em uma área específica (Inglaterra e
Alemanha). Quer dizer, não é somente uma prova bem feita que
tornará mais democrático o acesso ao ensino superior no Brasil. Outra
linha de raciocínio é aquela que defende que a avaliação forneça uma
visão de processo, um retrato da evolução do candidato, como já ocorre
em seleções como a que é realizada pela Universidade de Brasília (UnB)
por meio do Programa de Avaliação Seriada, o PAS. Nessa linha,
a professora Maria Márcia Sigrist Malavasi defende, então, que o Enem
se transforme em um exame que o aluno possa fazer várias vezes durante
o ensino médio. "Dessa maneira, é possível medir o valor agregado, o
quanto o aluno melhorou, o que torna o processo mais democrático." De
sua parte, Cândido Gomes, professor do mestrado da Universidade
Católica de Brasília, lembra, por exemplo, que uma grande parcela dos
alunos do ensino médio sequer cogita a possibilidade de concorrer a uma
vaga numa universidade. Ou seja, os excluídos tendem a continuar
excluídos, já que o Enem acaba se destinando a um grupo de estudantes
que pouco diferem daqueles que concorrem nos vestibulares tradicionais:
aqueles que vislumbram um futuro na universidade.
Ou, como
argumenta o coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação,
Daniel Cara, o risco é substituir a "cenoura usada para atrair a
atenção do cavalo" sem que se efetivem as mudanças necessárias para
assegurar uma formação de qualidade e que atenda às necessidades dos
jovens. Ensino médio em foco O professor
Gomes e o ativista Cara tocam em uma questão central em meio ao debate
sobre o novo Enem. Afinal, é inegável que o vestibular funciona e
continuará a funcionar como um norte para o ensino médio. Mas a questão
que fica é: até que ponto a mudança do modelo de ingresso no ensino
superior produzirá um impacto no sentido de melhorar as condições de
ensino e aprendizagem? Será que ao se colocar tanta ênfase e
expectativa numa avaliação não se incorre no risco de desviar do foco
central do problema? Até porque, como alerta Gomes, existe o
risco de o Enem promover um "afrouxamento" do conteúdo curricular do
ensino médio, se as escolas entenderem que a melhor estratégia para
preparar seus alunos é reduzir o que se ensina ao que se pede no exame.
Esse risco se acentua quando se leva em conta que, na opinião do
professor, o ensino médio deveria ser capaz de acrescentar muito mais
ao rendimento dos alunos do que faz em três anos. Seu argumento
se sustenta em teses defendidas na Universidade Católica de Brasília,
que demonstram que os exames vestibulares tendem a influir nos
programas do ensino médio, mas não na metodologia de ensino. "Nossos
estudos demonstram que os professores têm como meta o acerto das
questões pelos alunos, mas não há mudança na filosofia da escola. A
escola continua a ser a mesma, propedêutica. É como se buscassem o
perfume, mas não a flor que o produz", analisa. Ana Paula Corti
defende que o Enem deverá, sim, ser uma influência importante na
definição dos conteúdos do ensino médio, até porque o Estado está
induzindo a esse processo. Mas os efeitos positivos de tal processo são
relativos. "Se o novo Enem vier acompanhado de outras mudanças que
permitam às escolas construir um currículo real, mais contextualizado e
significativo, pode até ser interessante. Mas sozinho, não acredito que
ele vá produzir as mudanças que precisamos efetivar no ensino médio",
prevê. Em meio a esse contexto, a Secretaria de Educação Básica
do MEC apresentou, em maio, o programa Ensino Médio Inovador. Concebido
como uma proposta para renovar o currículo das escolas secundárias não
profissionalizantes, o programa propõe, em linhas gerais, a organização
dos conteúdos de acordo com as áreas configuradas nas Diretrizes
Curriculares Nacionais para o Ensino Médio de 1998, o aumento da carga
horária para 3 mil horas e a criação de um núcleo de disciplinas
optativo. O programa, contudo, deverá atender a um universo
pequeno de escolas - a versão preliminar do programa fala em cem
escolas, selecionadas entre as que têm pior classificação no Índice de
Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) - e funciona por meio de
convênios com estados, que receberão apoio técnico e financeiro para
implementar seus projetos. Embora não exista uma relação de causa
e efeito entre o novo Enem e o programa, há uma sintonia entre ambos,
já que o MEC entende que o exame consiste em uma oportunidade para
estabelecer um referencial nacional capaz de sinalizar para o que se
espera do ensino médio em termos de conteúdo e de maneiras de
abordá-lo. "No ensino fundamental, de 1ª a 4ª não existem
muitas dúvidas do que se espera da escola: o aluno tem de aprender a
ler, a escrever e tem de dominar alguns conceitos matemáticos básicos.
Já no ensino médio não é assim. Há um problema de desenho, uma
indefinição sobre o que se quer, além das deficiências de qualidade",
analisa o presidente do Inep. Nesse contexto, a expectativa é
que o Enem funcione como uma bússola, orientando o caminho a ser
seguido. "A avaliação não é o currículo, mas ela sinaliza para o que é
importante", sintetiza Fernandes, presidente do Inep. Mas uma
questão que não pode ser relegada a um plano secundário é a utilização
da avaliação pelas escolas, a maneira como professores e demais
integrantes das equipes se apropriam dos resultados e trabalham com
eles no cotidiano. E, para tanto, é necessário uma escola com boa
infraestrutura, com professores bem preparados, que contem com
condições adequadas de trabalho.
Por isso, o consultor Roberto
Leal Lobo chama a atenção para o fato de que a verdadeira questão a ser
enfrentada é assegurar que o aluno chegue ao final do ensino médio com
uma boa formação. "Esse deveria ser o foco, não a passagem do ensino
médio para o superior", afirma. E isso, reitera Ana Paula Corti,
perpassa a implantação de políticas que diminuam a distância entre dois
universos juvenis que se contrapõem - o do jovem das escolas públicas,
isolados e distantes do mundo do ensino superior em virtude de fatores
sociais desfavoráveis, e o dos jovens da escola particular, cujo foco é
o ingresso na universidade. Dupla função | O
Enem poderá vir a ser mais do que um instrumento de ingresso nas
universidades federais. Uma das ideias veiculadas em meio ao debate
atual é a possibilidade de transformar o Enem em um exame obrigatório
de conclusão do ensino médio a partir de 2010. A proposta, que já
chegou a ser discutida no âmbito do Consed, esbarra em empecilhos de
ordem operacional e política. De um lado, há a logística para realizar
um exame nacional para todos os concluintes do ensino médio e, de
outro, o questionamento sobre a legitimidade dessa proposta - se o Enem
se tornar obrigatório para a obtenção do diploma de ensino médio, o
governo federal se sobrepõe ao sistema federativo na educação. Assim
sendo, o mais provável é que os Estados que desejarem façam a adesão à
ideia. Para alguns, uma das dificuldades inerentes à proposta é a
dificuldade de "casar" dois objetivos distintos numa mesma avaliação -
diagnóstico do ensino médio e seleção de estudantes para as
universidades. O educador Pedro Flexa Ribeiro, diretor do Colégio
Andrews, escola particular do Rio de Janeiro, argumenta que a
"elasticidade" das avaliações é limitada. "A tentativa de síntese entre
diferentes objetivos implicará perda de foco e de precisão", defende. A
consultora do Inep Gisele Gama Andrade discorda desse ponto de vista.
Para ela, o correto é que a saída de um aluno da Educação Básica seja o
determinante de sua entrada no ensino superior e não o contrário, como
vem ocorrendo atualmente. "O perfil do ensino médio tem sido definido
pelos editais de ingresso das universidades, o que leva os alunos e as
escolas a tentar se adaptar a realidades muitas vezes desconexas". Na
opinião dela, o Enem é capaz de cumprir adequadamente essa dupla função. |
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